Revista Multimídia Ambiental

Pensando em um mundo melhor.

Campo Grande calcula sua pegada ecológica

em 19/04/2011

Campo Grande é a primeira cidade brasileira a contar com o cálculo da pegada ecológica. Os resultados do estudo foram apresentados em uma oficina realizada pelo WWF-Brasil e pela prefeitura da capital sul-mato-grossense, nos dias 7 e 8/4. O estudo avaliou os hábitos de consumo da população de Campo Grande e apontou uma pegada ecológica de 3,14 hectares globais por pessoa.

A pegada ecológica de um país, cidade ou pessoa corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e mar necessárias para sustentar determinado estilo de vida. É uma forma de traduzir, em hectares, a extensão de território que uma pessoa ou uma sociedade “usa”, em média, para se alimentar, morar, se locomover, ter e afins.  A metodologia vem sendo testada em algumas cidades do mundo, mas, no Brasil, pela primeira vez é desenvolvida para uma cidade.

O trabalho foi realizado pelo WWF-Brasil em parceria com a prefeitura da capital do Mato Grosso do Sul, Global Footprint Network (GFN), a empresa social Ecossistemas e a Universidade Privada Anhanguera. O objetivo foi ter uma ferramenta de gestão para ajudar no planejamento e na gestão pública, mobilizar a população para rever seus hábitos de consumo e escolher produtos mais sustentáveis, além de estimular empresas a melhorarem  suas cadeiras produtivas.

A pegada ecológica é uma  metodologia de contabilidade ambiental que avalia de um lado o consumo e do outro a capacidade de recursos naturais disponíveis no planeta. “É possível traduzir a pegada ecológica em quantos e quais recursos são usados pela população e em quanto isso excede a capacidade de recuperação natural dos ecossistemas”, disse Michael Becker, coordenador do Programa Pantanal-Cerrado do WWF-Brasil.

E os estudos realizados pela Global Footprint Network (GFN), rede mundial responsável pelos cálculos da pegada ecológica, mostram que a humanidade já excedeu bastante essa capacidade. Hoje a pegada ecológica média mundial é 2,7 hectares globais por pessoa, enquanto a biocapacidade disponível para cada ser humano é de apenas 1,8 hectares globais. “Isso coloca a humanidade em um grave déficit ecológico de 0,9 hectares globais per capita”, afirmou o  diretor da Escossistemas, Fabrício de Campos, responsável pelo cálculo.

A pegada de Campo Grande – No caso de Campo Grande, os 3,14 hectares podem ser traduzidos em 1,7 planetas. Isso significa que se todas as pessoas do mundo tivessem o mesmo consumo do morador de Campo Grande, seriam necessários quase dois planetas para sustentar esse estilo de vida.  A questão é que existe um planeta. “Estamos no cheque especial. Estamos drenando o crédito planetário e  exaurindo nosso capital natural. Isso é muito sério”, destacou o diretor da Escossistemas, Fabrício de Campos, responsável pelo cálculo.

Se comparada à média brasileira, Campo Grande tem uma pegada 8% maior que a média nacional, que é de 2,9 hectares globais por pessoa. Ela também é 10% maior que a do Mato Grosso do Sul e 14% maior que a Pegada média mundial, que é de 2,7 hectares globais por pessoa. O Mato Grosso do Sul, por sua vez, tem uma Pegada Ecológica 3% menor que a média brasileira.

Pastagens, agricultura e florestas somam 75% da Pegada Ecológica de Campo. Em classes de consumo, o maior impacto foi na alimentação, com 45%, com destaque para o consumo de carne. O  estudo apontou que o consumo de carne de campo grande é 13% maior que a média nacional.

Michael Becker fez questão de salientar que o objetivo da pegada não é apenas detectar os problemas mas principalmente as soluções.  Além disso, o objetivo não é dizer às pessoas que elas não devem consumir. “Trata-se mais de partir para um consumo responsável” explicou.

“Temos o orgulho de ser a primeira cidade brasileira a ter esse cálculo. Vamos aproveitar esses dados para nos aperfeiçoar e oferecer um desenvolvimento com sustentabilidade à população”,  destacou o prefeito Nelson Trad Filho.

De acordo com ele, algumas  ações que já vêm sendo desenvolvidas pela prefeitura podem contribuir para essa melhora. Entre elas, a inclusão de orgânicos na merenda escolar e o plantio de mudas de árvores. “Acreditamos que o estudo vai ser um balizador para que numa próxima medição, possamos ter indicadores melhores, mostrando que avançamos”, disse Trad.

O Secretário Municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, Marcos Cristaldo,  também falou a importância desse trabalho para a cidade de Campo Grande. “A pegada ecológica é um indicador importante para o planejamento urbano e norteador da política municipal de meio ambiente para que a cidade cresça sem perda de qualidade de vida da população”, disse
Exemplo para outras cidades

A escolha da capital sul-mato-grossense para ser a primeira cidade brasileira a desenvolver essa metodologia se deve a alguns fatores, como Campo Grande ser a capital do estado que abriga a maior parte do Pantanal, região com enorme riqueza ambiental e ao mesmo tempo ameaçada pela degradação provocada por alguns modos insustentáveis de consumo.

Embora esteja na borda do Pantanal e não dentro dele, os impactos causados pelo consumo, de moradores da cidade e de outras partes do Brasil e do mundo, têm reflexos sobre a planície pantaneira.

Outro elemento importante é o perfil da cidade, similar ao de muitas cidades brasileiras, onde ainda é possível direcionar o planejamento urbano.  “Campo Grande ainda não administra o caos como em outras cidades do Brasil e do mundo. Por isso temos uma oportunidade para que seu desenvolvimento se dê em  bases mais sustentáveis”, ressaltou a técnica de conservação do WWF-Brasil, Terezinha Martins.

De acordo com Michael Becker, o exemplo de Campo Grande deve ser  seguido. “As cidades brasileiras precisam medir e conhecer suas pegadas, olhar para seu ‘marcador de combustível’ e tornar concretas alternativas para se ter um consumo melhor, associado à garantia da qualidade de vida das populações”, destacou.

Base de dados da pesquisa – Para determinar os padrões de consumo do cidadão médio em Campo Grande foi usada a Pesquisa de Orçamento Familiar, utilizada pela Universidade Anhanguera – Uniderp e Fundação Manoel de Barros – FMB para a determinação do Índice de Preços ao Consumidor.  No entanto, foi necessário atualizar a pesquisa, que era de 2004, para os padrões de 2008, bem como assumir como padrão médio de despesas para Campo Grande o mesmo valor determinado para Mato Grosso do Sul pela Pesquisa de Orçamentos Familiares do IBGE.

Próximos passos

O cálculo da Pegada Ecológica é a primeira etapa do trabalho. Com o diagnóstico pronto, os parceiros estão agora iniciando um plano de ações que serão implementadas a curto, médio e longo prazos, para reduzir a pegada ecológica.

Esse plano inicial foi elaborado durante a oficina de dois dias, que teve a participação de diferentes segmentos da cidade – governo,  ONGs, universidades, movimentos sociais, centros de pesquisa e outros que venham a participar depois. “Essa é uma ação que ter o envolvimento de todo mundo. Só assim poderemos encontrar soluções para construir uma Campo Grande melhor, com menos impactos” destacou Terezinha.

Na oficina foram estabelecidos alguns programas, projetos e orientações a políticas públicas para a redução dos impactos ambientais e consumo conscientes da cidade.

Entre elas, ações de reflorestamento de áreas degradadas utilizando sistemas agroflorestais, recuperação de nascentes, recomposição de matas ciliares e corredores ecológicos.

Ações de melhoria da qualidade da água para uso humano também foram propostas, incluindo limpeza dos canais, reflorestamento de matas ciliares, como forma de melhorar a gestão ambiental e  atuar na prevenção a enchentes e epidemias.

Em relação a ações de gestão de resíduos sólidos, foram apontadas ações que vão desde a separação do lixo nos domicílios, entrega para cooperativas de catadores para reutilização e reciclagem e gestão do destino final.

Outro ponto que irá integrar o plano de ação é potencializar os projetos já existentes de agricultura periurbana, com destaque para o fomento à produção de alimentos orgânicos e agroecológicos e de economia solidária e de valorização  dos produtos  e serviços da agricultura familiar.

Esse aspecto é importante porque uma das constatações do estudo foi que boa parte dos legumes consumidos em Campo Grande vem de fora. Com isso, será possível aumentar a demanda da população por produtos locais, reduzir o consumo de produtos vindos de outros locais e fortalecer a circulação de recursos financeiros para a cidade.

Foi proposta também a realização de uma oficina de comunicação para elaborar estratégias de comunicação visando a disseminação das políticas públicas definidas no planejamento.

O trabalho com a Pegada Ecológica de Campo Grande está começando a ganhar projeção nacional.  No dia 13 de abril, o estudo será apresentado na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEAUSP), de 11h30 as 13h30.

Sobre a Pegada Ecológica

A Pegada Ecológica é uma metodologia de contabilidade ambiental que avalia a pressão do consumo das populações humanas sobre os recursos naturais. Expressada em hectares globais (gha), permite comparar diferentes padrões de consumo e verificar se estão dentro da capacidade ecológica do planeta.

Um hectare global significa um hectare de produtividade média mundial para terras e águas produtivas em um ano.  Já a bioacapacidade, representa a capacidade dos ecossistemas em produzir recursos úteis e absorver os resíduos gerados pelo ser humano.

Sendo assim, a Pegada Ecológica contabiliza os recursos naturais biológicos renováveis (grãos e vegetais, carne, peixes, madeira e fibras, energia renovável etc), segmentados Agricultura, Pastagens, Florestas, Pesca, Área Construída e Energia e Absorção de Dióxido de Carbono (CO2).

Fonte: WWF 

Texto de  Geralda Magela, de Campo Grande (MS)


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